sexta-feira, 4 de agosto de 2017

As multidões


Nem todos podem tomar um banho na multidão: ter o prazer da turba é uma arte. Só assim
se pode oferecer, à custa do gênero humano, um banquete de vitalidade, a quem uma fada
insuflou, no berço, o gosto da dissimulação, a máscara, o ódio ao domicílio e a paixão da
viagem.

Multidão, soledade: termos iguais e convertíveis pelo poeta imaginoso e fecundo.

Quem não sabe povoar a própria solidão não sabe tão pouco isolar-se na massa inquieta.

O poeta goza do incomparável privilégio de poder, à vontade, ser ele próprio e outrem.
Como as almas errantes que procuram um corpo, ele entra, quando quer, na personalidade de
cada um. Só para ele, tudo está vazio; e, se certos lugares parecem-lhe interditos, é que a seus
olhos não valem a pena de ser visitados.

O passeador solitário e pensativo experimenta uma singular embriaguez nessa comunhão
universal. Quem esposa facilmente a multidão conhece prazeres febris, dos quais estarão
eternamente privados o egoísta, fechado como um cofre, e o preguiçoso, internado como um
molusco. Adota como suas todas as ideias, todas as alegrias e todas as misérias que as
circunstâncias lhe apresentam.

O que os homens denominam amor é muito pequeno, restrito e frágil, quando comparado à
inefável orgia, à santa prostituição da alma que se entrega toda, poesia e caridade, ao
imprevisto que aparece, ao desconhecido que passa.

Convém mostrar, às vezes, aos felizardos do mundo, ao menos para humilhar um instante
o seu tolo orgulho, que há venturas superiores à deles, mais vastas e mais refinadas.

Os fundadores de colônias, os pastores de povos, os sacerdotes missionários exilados nos
confins do mundo, conhecem sem dúvida alguma coisa dessa embriaguez misteriosa; e, no seio
da vasta família que o seu gênio formou, devem rir, às vezes, dos que lhes deploram o destino
agitado e a vida tão casta.

Texto: Charles Baudelaire, em "Pequenos poemas em prosa". Editora Hedra.
Imagem: Debra Cartwright


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