Bordoada

 Melina voou pra casa, alucinada, não se sabe se pelo exercício físico pesado e recém começado, ou se pelos longos diálogos travados pós-luta entre ela e seu oponente. Frenética, ignorou a falta de energia ao entrar em seu condomínio, subiu apressadamente os sete andares que a separavam do estacionamento, tomou um banho curto e gelado, caiu na cama e apagou quase que imediatamente. Teve um sono pesado e, apesar do corpo acordar suave e descansado, sua cabeça parecia rodar desencontrada, procurando eixo e prumo.

Sentia, pelas revelações da última noite, que ironicamente tinha levado não uma, mas algumas pernadas do futuro. Como num drible de futebol, ela sempre se sentia muito perto da bola, e quando mal percebia, lhe era tirada, ágil e habilidosamente, de seus pés. O que ela antes desconhecia parecia agora latejar como uma firme bordoada da vida, fina e certeira ironia do destino, daquelas de deixar zonza, de abrir um clarão nos olhos e em tudo em redor. Sentia o mundo girar, girar, girar... ao que estendeu a mão pra se apoiar, só encontrou à frente uma cadeira de pernas bambas.

Melina mal acordou, sucumbiu à caminho do tombo. Na certa, um baque feio.

Melina sempre se levanta,

e recomeça.



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