segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Noite luzidia



Era um rebento alvo e puro
Reluzente como tu sempre foste
Era assim, calada, trêmula 
Carne calma, clara, luzidia
Mais tua que minha em todos os traços
Sorriso manso
Muito embora,
a isso não tenha puxado nem a mim 
nem a ti.
Nós, aves de rapina
Ela garça alba rara
voo rasante.

Tinha espírito livre
como eu e tu sempre tivemos
e por isso nunca nos pertecemos
Nem eu a ti
Nem a ninguém

Sonhei contigo em mim
E era minha também
Ela esperara por alguém
Sempre esperara alguém
E nisso era tão sublime
tão suave 
Tão minha
tão eu em outra pele
clara pele
branca como neve 
E ainda assim vinha de mim
Era fora de mim.

Foi sonho
E foi tão cheio de verdade e mistério
como sempre fomos
Minha criança era tua
tão tua que pousava abandonada.

Este poema nasceu de um sonho. Eu queria que isso acontecesse mais vezes: sonhar tão significativa e profundamente que me nasce um filho, uma árvore, um poema, um vulcão em erupção, uma borboleta de um casulo, um livro inteiro, um mundo intenso, um rebento que não se esperava, e que nasceu em 24/05/2014. Isto é um post republicado.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Não digas nada




Não digas nada!
Nem mesmo a verdade.
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Um dizer repleto da consciência da necessidade do silêncio (A. Ruiz, sobre Leminski)




sabendo
que assim dizendo
— poema —
estava te matando
mesmo assim
te disse
sabendo
que assim fazendo
você estava durando
foi duro
mesmo assim
te trouxe
mesmo assim
te fiz
mesmo sabendo que ias
fugaz
ser infeliz
sempre infeliz
mesmo assim
te quis
mesmo sabendo
que ia te querer
ficar querendo
e pedir bis

Leminski

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

contranarciso


em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro

enfim, dezenas de
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você

você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós

e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós.

Leminski

Bordoada

 Melina voou pra casa, alucinada, não se sabe se pelo exercício físico pesado e recém começado, ou se pelos longos diálogos travados pós-luta entre ela e seu oponente. Frenética, ignorou a falta de energia ao entrar em seu condomínio, subiu apressadamente os sete andares que a separavam do estacionamento, tomou um banho curto e gelado, caiu na cama e apagou quase que imediatamente. Teve um sono pesado e, apesar do corpo acordar suave e descansado, sua cabeça parecia rodar desencontrada, procurando eixo e prumo.

Sentia, pelas revelações da última noite, que ironicamente tinha levado não uma, mas algumas pernadas do futuro. Como num drible de futebol, ela sempre se sentia muito perto da bola, e quando mal percebia, lhe era tirada, ágil e habilidosamente, de seus pés. O que ela antes desconhecia parecia agora latejar como uma firme bordoada da vida, fina e certeira ironia do destino, daquelas de deixar zonza, de abrir um clarão nos olhos e em tudo em redor. Sentia o mundo girar, girar, girar... ao que estendeu a mão pra se apoiar, só encontrou à frente uma cadeira de pernas bambas.

Melina mal acordou, sucumbiu à caminho do tombo. Na certa, um baque feio.

Melina sempre se levanta,

e recomeça.



Sensação infinita

Aplicada a conhecer e entender de Cinema

Então... há algum tempo eu ando incomodada com o meu pouco conhecimento sobre cinema aliada a uma péssima memória dos filmes que assisto. Co...