Postagens

Mostrando postagens de Fevereiro, 2016

Noite luzidia

Imagem
Era um rebento alvo e puro
Reluzente como tu sempre foste
Era assim, calada, trêmula 
Carne calma, clara, luzidia
Mais tua que minha em todos os traços
Sorriso manso
Muito embora,
a isso não tenha puxado nem a mim 
nem a ti.
Nós, aves de rapina
Ela garça alba rara
voo rasante.

Tinha espírito livre
como eu e tu sempre tivemos
e por isso nunca nos pertecemos
Nem eu a ti
Nem a ninguém

Sonhei contigo em mim
E era minha também
Ela esperara por alguém
Sempre esperara alguém
E nisso era tão sublime
tão suave 
Tão minha
tão eu em outra pele
clara pele
branca como neve 
E ainda assim vinha de mim
Era fora de mim.

Foi sonho
E foi tão cheio de verdade e mistério
como sempre fomos
Minha criança era tua
tão tua que p

Não digas nada

Imagem
Não digas nada!
Nem mesmo a verdade.
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Um dizer repleto da consciência da necessidade do silêncio (A. Ruiz, sobre Leminski)

Imagem
sabendo
que assim dizendo
— poema —
estava te matando
mesmo assim
te disse
sabendo
que assim fazendo
você estava durando
foi duro
mesmo assim
te trouxe
mesmo assim
te fiz
mesmo sabendo que ias
fugaz
ser infeliz
sempre infeliz
mesmo assim
te quis
mesmo sabendo
que ia te querer
ficar querendo
e pedir bis

Leminski

contranarciso

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro

enfim, dezenas de
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você

você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós

e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós.

Leminski

Bordoada

Imagem
Melina voou pra casa, alucinada, não se sabe se pelo exercício físico pesado e recém começado, ou se pelos longos diálogos travados pós-luta entre ela e seu oponente. Frenética, ignorou a falta de energia ao entrar em seu condomínio, subiu apressadamente os sete andares que a separavam do estacionamento, tomou um banho curto e gelado, caiu na cama e apagou quase que imediatamente. Teve um sono pesado e, apesar do corpo acordar suave e descansado, sua cabeça parecia rodar desencontrada, procurando eixo e prumo.

Sentia, pelas revelações da última noite, que ironicamente tinha levado não uma, mas algumas pernadas do futuro. Como num drible de futebol, ela sempre se sentia muito perto da bola, e quando mal percebia, lhe era tirada, ágil e habilidosamente, de seus pés. O que ela antes desconhecia parecia agora latejar como uma firme bordoada da vida, fina e certeira ironia do destino, daquelas de deixar zonza, de abrir um clarão nos olhos e em tudo em redor. Sentia o mundo girar, girar, gir…

Sensação infinita

Imagem