domingo, 23 de agosto de 2015

Um trecho que vale a reflexão... e que valeu a leitura do livro inteiro.

"Certa noite Guershom Wald lhe contou uma história que se passara com um batalhão de cruzados que, no século XI, saíra da região de Avignon em sua jornada até Jerusalém, para resgatá-la das mãos dos infiéis e nela encontrar o perdão para seus pecados e a paz espiritual. 

Em seu caminho, esse batalhão passou por florestas e estepes, por vilas e aldeias, montanhas e rios. Muitas dificuldades acometeram os portadores da cruz em sua jornada, doenças, e discórdias e fome e combates sangrentos contra bandos de salteadores de estrada e contra outros batalhões armados que também estavam a caminho de Jerusalém em nome da cruz. Mais de uma vez erraram o caminho, mais de uma vez foram assolados pela peste e pelo frio e pela carência, mais de uma vez os atacou uma pungente saudade de casa, mas sempre, todas as vezes, evocaram a visão maravilhosa de Jerusalém, uma cidade que não pertence a este mundo, uma cidade sem maldade e sem sofrimentos, só com a paz terrena e celestial, com um amor profundo e límpido, uma cidade toda banhada da luz eterna da compaixão e da caridade. E assim avançavam pelos vales áridos, escalavam montanhas nevadas, atravessavam planícies cortadas pelos ventos e desoladas regiões de colinas com vegetação rasteira.

Aos poucos, seu ânimo foi arrefecendo, a decepção, o cansaço e o desalento corroíam suas hostes, alguns perdiam a razão e outros foram tomados pelo desespero e pela indiferença quando perceberam que a ambicionada Jerusalém não era de forma alguma uma cidade, mas pura saudade. E assim mesmo aqueles cruzados continuaram a ir para o Oriente, em direção a Jerusalém, Chafurdando na lama, na poeira e na neve, arrastando as pernas cansadas ao longo da margem do rio Pó e para a costa setentrional do mar Adriático até chegarem numa certa tarde de verão na hora do pôr do sol, a um pequeno vale cercado de altas montanhas em uma região interior da terra que hoje se conhece pelo nome de Eslovênia. 

Esse vale foi para eles como que a morada de Deus, cheio de fontes e pradarias e pastos verdejantes, coroado de bosques florescentes e vinhedos e pomares em flor, e nele havia uma pequena aldeia construída em torno de um poço, com uma praça calcada com lajes de pedra, e com celeiros e telheiros de telhados inclinados. Rebanhos de ovelhas se espraiavam pelas encostas e entre vacas pachorrentas e sonhadoras espalhadas pelo prado aqui e ali gansos perambulavam.  os camponeses lhes pareceram tranquilos e serenos, e as moças de cabelos escuros eram sorridentes e roliças. E assim aconteceu que esses cruzados confabularam e finalmente decidiram chamar aquele vale abençoado de Jerusalém, e nele encerrar sua exaustiva jornada.

Ergueram, pois, um acampamento numa das encostas, em frente às casas da aldeia, deram de beber e de comer a seus cansados cavalos, mergulharam nas águas do riacho, e depois de descansar das aflições da jornada nessa Jerusalém, começaram a construí-la com as próprias mãos: ergueram vinte ou trinta cabanas modestas, separaram e entregaram um pedaço de campo para cada um, abriram caminhos, construíram uma pequena igreja com um belo campanário. Com o passar di tempo foram tomando como esposas moças da aldeia que viviam na parte mais profunda do vale, tiveram filhos que cresceram e que também se divertiam chapinhando nas águas do Jordão, corriam descalços pelos bosques de Belém, galgavam o monte das Oliveiras, desciam a Getsêmani, ao vale de Kidrom e Betânia, ou brincavam de esconder entre os vinhedos de Ein Guedi. "E assim eles vivem até hoje", disse Guershom Wald, "uma vida de pureza e liberdade na Cidade Santa e na Terra Prometida, e tudo isso sem mais derramamento de sangue inocente e sem lutas, sem ter de lutar sem trégua com hereges e inimigos. Vivem na Jerusalém deles em paz e tranquilidade, ish tachat gafnó veish tachat teenató, um à sombra de seu vinhedo, outro à sombra de sua figueira. Até o fim de todos os tempos.

E você? Para onde você pensa, se é que pensa, em ir ao sair daqui?"



Trecho do livro JUDAS, do Amós Oz, com tradução do hebraico do Paulo Geiger, páginas 91 a 93. Editora Companhia das Letras, 2014.

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