quarta-feira, 26 de agosto de 2015

TIETA DO AGRESTE PASTORA DE CABRAS ou A VOLTA DA FILHA PRÓDIGA

O melhor primeiro capítulo de todos os livros que eu já li.




Silêncio e solidão, o rio penetra mar adentro no oceano sem limites sob o céu despejado, o fim e o
começo. Dunas imensas, límpidas montanhas de areia, a menina correndo igual a uma cabrita para o alto, no rosto a claridade do sol e o zunido do vento, os pés leves e descalços pondo distância entre ela e o homem forte, na pujança dos quarenta anos, a persegui-la.

Arfando, o homem sobe, o chapéu na mão para que não voe e se perca. Os sapatos enterram-se na areia; o reflexo do sol cega-lhe os olhos; agudo fio de navalha, o vento corta-lhe a pele; o suor escorre pelo corpo inteiro; o desejo e a raiva — quando te pegar, peste!, te arrombo e mato.

A menina volta-se e olha, mede a distância a separá-la do mascate, o medo e o desejo: se ele me pegar vai meter em mim, estremece apavorada;mas, se eu não esperar, ele desiste, ah!, isso não, não pode permitir mesmo que queira pois o tempo é chegado.

O homem também parou e fala, grita palavras que não alcançam a menina, perdidas na areia, levadas pelo vento. Ela não ouve mas adivinha e responde:
— Bééé! — Assim cantam as cabras que ela pastoreia.

O desafio bate na face, penetra nos ovos do mascate, ergue-lhe as forças, ele avança. Atenta, a menina espera. 

Lá atrás o rio, na frente o oceano, os olhos adolescentes percorrem e dominam a paisagem desmedida. Naquele momento de espera, de ânsia e de angústia, a menina fixou na memória a deslumbrante imensidão da cama de noiva que lhe coube. Do outro lado da barra, a beleza da praia
larga e rasa do Saco, em mar de águas mansas, no estado de Sergipe, a ampla aldeia de pescadores, com armazém, capela e escola, um vilarejo. O oposto dos cômoros monumentais onde ela se encontra, a invadirem as águas, o espaço do mar, contidos pelos vagalhões na fúria da guerra.
Aqui o vento deposita diária colheita de areia, a mais alva, a mais fina, escolhida a propósito para formar a praia singular de Mangue Seco, sem comparação com nenhuma outra, aqui onde a Bahia nasce na convulsa conjunção do rio Real com o oceano.

Dúzia, dúzia e meia de casebres provisórios, mudando-se ao sabor do vento e da areia a invadi-los e soterrá-los, morada dos poucos pescadores a habitar desse lado da barra. Durante o dia, as mulheres pescam no mangue de caranguejos, os homens lançam as redes ao mar. Por vezes partem em pesca milagrosa, audazes a cruzar os vagalhões altos como as dunas nos únicos barcos capazes de enfrentá-los e prosseguir mar afora, ao encontro marcado com navios e escunas, em noites de breu, para o desembarque do contrabando.

O falso mascate vem na lancha a motor recolher as caixas de bebidas, de perfumes, os fardos de seda italiana, de casimira e linho ingleses, outras especiarias, e fazer o módico pagamento — dinheiro para a farinha, o café, o açúcar, a cachaça, o fumo de rolo. De quando em quando, traz uma vadia na lancha e enquanto caixas e fardos são transportados dos casebres, vai despachá-la nas dunas, sobre as palhas dos coqueiros para aproveitar o tempo. Um garanhão, o mascate; os pescadores o apreciam.
Em mais de uma ocasião ele não os acompanhou nos barcos, indiferente às vagas, até o alto-mar de navios e tubarões?

A menina deixa que o homem chegue bem perto — só então dispara areia acima e do alto novamente canta o exigente e assustado chamado das cabras. De amor, não conhece outra expressão, outra palavra, outro som. Ainda naquele dia o ouvira da cabrita no primeiro cio quando o bode Inácio, pai do rebanho, se encaminhou para ela, balançando o cavanhaque e as trouxas. Depois o mascate apareceu e a menina aceitou o convite para o passeio de lancha, vinte minutos de rio, cinco de mar
agitado e o esplendor de Mangue Seco. Como resistir, dizer obrigada, mas não vou? Mentira: não a seduzira a corrida no rio, a travessia do pedaço de mar, nem sequer as dunas bem-amadas desde a infância. A menina não tenta inocentar-se. Recusara convites anteriores, o mascate a tinha de olho há tempos. Desta vez agora ela disse vamos, sabendo a que ia.




Quando, porém, sente a mão pesada segurar-lhe o braço o medo a invade inteira, da cabeça aos pés. Contém-se, no entanto não busca fugir. O homem a derruba sobre as folhas dos coqueiros, suspende-lhe a saia, arranca-lhe a calçola, trapo sujo. De joelhos sobre ela, enterra o chapéu na areia para que não voe e se perca, abre a braguilha. A menina o deixa fazer e quer que ele o faça. Para ela soara o tempo, como para as cabritas a hora temida e desejada, a hora implacável do bode Inácio, o saco quase a arrastar por terra de tão grande. Sua hora chegara, já não lhe corria sangue entre as coxas todos os meses?

Nas dunas de Mangue Seco, Tieta, pastora de cabras, conheceu o gosto do homem, mistura de mar e suor, de areia e vento. Quando o mascate a arrombou, igual à cabrita horas atrás, ela berrou. De dor e
de contentamento.

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Um clássico da literatura nacional. Tieta do Agreste, de Jorge Amado.

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