quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Viver sem tempos mortos




Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro.

O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar. Portanto, ao meu passado, eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minha necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo.

Hoje, que espaço o meu passado deixa para a minha liberdade hoje? Não sou escrava dele.

O que eu sempre quis foi comunicar unicamente da maneira mais direta o sabor da minha vida. Unicamente o sabor da minha vida. Acredito que eu consegui fazê-lo.

Vivi num mundo de homens, guardando em mim o melhor da minha feminilidade. Não desejei e nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos.

Simone de Beauvoir

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

TIETA DO AGRESTE PASTORA DE CABRAS ou A VOLTA DA FILHA PRÓDIGA

O melhor primeiro capítulo de todos os livros que eu já li.




Silêncio e solidão, o rio penetra mar adentro no oceano sem limites sob o céu despejado, o fim e o
começo. Dunas imensas, límpidas montanhas de areia, a menina correndo igual a uma cabrita para o alto, no rosto a claridade do sol e o zunido do vento, os pés leves e descalços pondo distância entre ela e o homem forte, na pujança dos quarenta anos, a persegui-la.

Arfando, o homem sobe, o chapéu na mão para que não voe e se perca. Os sapatos enterram-se na areia; o reflexo do sol cega-lhe os olhos; agudo fio de navalha, o vento corta-lhe a pele; o suor escorre pelo corpo inteiro; o desejo e a raiva — quando te pegar, peste!, te arrombo e mato.

A menina volta-se e olha, mede a distância a separá-la do mascate, o medo e o desejo: se ele me pegar vai meter em mim, estremece apavorada;mas, se eu não esperar, ele desiste, ah!, isso não, não pode permitir mesmo que queira pois o tempo é chegado.

O homem também parou e fala, grita palavras que não alcançam a menina, perdidas na areia, levadas pelo vento. Ela não ouve mas adivinha e responde:
— Bééé! — Assim cantam as cabras que ela pastoreia.

O desafio bate na face, penetra nos ovos do mascate, ergue-lhe as forças, ele avança. Atenta, a menina espera. 

Lá atrás o rio, na frente o oceano, os olhos adolescentes percorrem e dominam a paisagem desmedida. Naquele momento de espera, de ânsia e de angústia, a menina fixou na memória a deslumbrante imensidão da cama de noiva que lhe coube. Do outro lado da barra, a beleza da praia
larga e rasa do Saco, em mar de águas mansas, no estado de Sergipe, a ampla aldeia de pescadores, com armazém, capela e escola, um vilarejo. O oposto dos cômoros monumentais onde ela se encontra, a invadirem as águas, o espaço do mar, contidos pelos vagalhões na fúria da guerra.
Aqui o vento deposita diária colheita de areia, a mais alva, a mais fina, escolhida a propósito para formar a praia singular de Mangue Seco, sem comparação com nenhuma outra, aqui onde a Bahia nasce na convulsa conjunção do rio Real com o oceano.

Dúzia, dúzia e meia de casebres provisórios, mudando-se ao sabor do vento e da areia a invadi-los e soterrá-los, morada dos poucos pescadores a habitar desse lado da barra. Durante o dia, as mulheres pescam no mangue de caranguejos, os homens lançam as redes ao mar. Por vezes partem em pesca milagrosa, audazes a cruzar os vagalhões altos como as dunas nos únicos barcos capazes de enfrentá-los e prosseguir mar afora, ao encontro marcado com navios e escunas, em noites de breu, para o desembarque do contrabando.

O falso mascate vem na lancha a motor recolher as caixas de bebidas, de perfumes, os fardos de seda italiana, de casimira e linho ingleses, outras especiarias, e fazer o módico pagamento — dinheiro para a farinha, o café, o açúcar, a cachaça, o fumo de rolo. De quando em quando, traz uma vadia na lancha e enquanto caixas e fardos são transportados dos casebres, vai despachá-la nas dunas, sobre as palhas dos coqueiros para aproveitar o tempo. Um garanhão, o mascate; os pescadores o apreciam.
Em mais de uma ocasião ele não os acompanhou nos barcos, indiferente às vagas, até o alto-mar de navios e tubarões?

A menina deixa que o homem chegue bem perto — só então dispara areia acima e do alto novamente canta o exigente e assustado chamado das cabras. De amor, não conhece outra expressão, outra palavra, outro som. Ainda naquele dia o ouvira da cabrita no primeiro cio quando o bode Inácio, pai do rebanho, se encaminhou para ela, balançando o cavanhaque e as trouxas. Depois o mascate apareceu e a menina aceitou o convite para o passeio de lancha, vinte minutos de rio, cinco de mar
agitado e o esplendor de Mangue Seco. Como resistir, dizer obrigada, mas não vou? Mentira: não a seduzira a corrida no rio, a travessia do pedaço de mar, nem sequer as dunas bem-amadas desde a infância. A menina não tenta inocentar-se. Recusara convites anteriores, o mascate a tinha de olho há tempos. Desta vez agora ela disse vamos, sabendo a que ia.




Quando, porém, sente a mão pesada segurar-lhe o braço o medo a invade inteira, da cabeça aos pés. Contém-se, no entanto não busca fugir. O homem a derruba sobre as folhas dos coqueiros, suspende-lhe a saia, arranca-lhe a calçola, trapo sujo. De joelhos sobre ela, enterra o chapéu na areia para que não voe e se perca, abre a braguilha. A menina o deixa fazer e quer que ele o faça. Para ela soara o tempo, como para as cabritas a hora temida e desejada, a hora implacável do bode Inácio, o saco quase a arrastar por terra de tão grande. Sua hora chegara, já não lhe corria sangue entre as coxas todos os meses?

Nas dunas de Mangue Seco, Tieta, pastora de cabras, conheceu o gosto do homem, mistura de mar e suor, de areia e vento. Quando o mascate a arrombou, igual à cabrita horas atrás, ela berrou. De dor e
de contentamento.

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Um clássico da literatura nacional. Tieta do Agreste, de Jorge Amado.

Não, eu não te amei assim que te vi


Não, eu não te amei assim que te vi.
Não te amei porque
Eu te olhei
E você tinha dois olhos
Óbvios e cômodos
Bem no meio da cara
No mesmo ângulo típico
De tanta gente errada.

Não, eu não te amei tão cedo.
Eu te amei depois.
Bem depois.

Depois de ver que sua cara
Carregava dois olhos
Cheios de angústias
e histórias
e dúvidas
e décadas
e mágoas

E depois de perceber
Que seus olhos
Também tinham medo
De química orgânica
E de física quântica
Mas que seus olhos,
apesar de tudo,
Ainda acreditavam
Em lâmpadas mágicas

Te amei quando vi
que seus olhos,
assim como os meus,
Tinham
Pálpebras que piscavam trêmulas e
Lágrimas que escorriam bêbadas

Te amei, enfim,
Porque percebi
que você poderia ser
mais do que um cônjuge lúcido
e mais do que um bálsamo sóbrio

Te amei porque
Finalmente percebi
que seria realmente você
a minha fábula sólida,
o meu último alívio
e meu único antídoto
para essa vida caótica.


RUTH MANUS
26 Agosto 2015 | 11:08 Fonte: http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ruth-manus/nao-eu-nao-te-amei-assim-que-te-vi/

Arte: Tamara de Lempicka

domingo, 23 de agosto de 2015

Um trecho que vale a reflexão... e que valeu a leitura do livro inteiro.

"Certa noite Guershom Wald lhe contou uma história que se passara com um batalhão de cruzados que, no século XI, saíra da região de Avignon em sua jornada até Jerusalém, para resgatá-la das mãos dos infiéis e nela encontrar o perdão para seus pecados e a paz espiritual. 

Em seu caminho, esse batalhão passou por florestas e estepes, por vilas e aldeias, montanhas e rios. Muitas dificuldades acometeram os portadores da cruz em sua jornada, doenças, e discórdias e fome e combates sangrentos contra bandos de salteadores de estrada e contra outros batalhões armados que também estavam a caminho de Jerusalém em nome da cruz. Mais de uma vez erraram o caminho, mais de uma vez foram assolados pela peste e pelo frio e pela carência, mais de uma vez os atacou uma pungente saudade de casa, mas sempre, todas as vezes, evocaram a visão maravilhosa de Jerusalém, uma cidade que não pertence a este mundo, uma cidade sem maldade e sem sofrimentos, só com a paz terrena e celestial, com um amor profundo e límpido, uma cidade toda banhada da luz eterna da compaixão e da caridade. E assim avançavam pelos vales áridos, escalavam montanhas nevadas, atravessavam planícies cortadas pelos ventos e desoladas regiões de colinas com vegetação rasteira.

Aos poucos, seu ânimo foi arrefecendo, a decepção, o cansaço e o desalento corroíam suas hostes, alguns perdiam a razão e outros foram tomados pelo desespero e pela indiferença quando perceberam que a ambicionada Jerusalém não era de forma alguma uma cidade, mas pura saudade. E assim mesmo aqueles cruzados continuaram a ir para o Oriente, em direção a Jerusalém, Chafurdando na lama, na poeira e na neve, arrastando as pernas cansadas ao longo da margem do rio Pó e para a costa setentrional do mar Adriático até chegarem numa certa tarde de verão na hora do pôr do sol, a um pequeno vale cercado de altas montanhas em uma região interior da terra que hoje se conhece pelo nome de Eslovênia. 

Esse vale foi para eles como que a morada de Deus, cheio de fontes e pradarias e pastos verdejantes, coroado de bosques florescentes e vinhedos e pomares em flor, e nele havia uma pequena aldeia construída em torno de um poço, com uma praça calcada com lajes de pedra, e com celeiros e telheiros de telhados inclinados. Rebanhos de ovelhas se espraiavam pelas encostas e entre vacas pachorrentas e sonhadoras espalhadas pelo prado aqui e ali gansos perambulavam.  os camponeses lhes pareceram tranquilos e serenos, e as moças de cabelos escuros eram sorridentes e roliças. E assim aconteceu que esses cruzados confabularam e finalmente decidiram chamar aquele vale abençoado de Jerusalém, e nele encerrar sua exaustiva jornada.

Ergueram, pois, um acampamento numa das encostas, em frente às casas da aldeia, deram de beber e de comer a seus cansados cavalos, mergulharam nas águas do riacho, e depois de descansar das aflições da jornada nessa Jerusalém, começaram a construí-la com as próprias mãos: ergueram vinte ou trinta cabanas modestas, separaram e entregaram um pedaço de campo para cada um, abriram caminhos, construíram uma pequena igreja com um belo campanário. Com o passar di tempo foram tomando como esposas moças da aldeia que viviam na parte mais profunda do vale, tiveram filhos que cresceram e que também se divertiam chapinhando nas águas do Jordão, corriam descalços pelos bosques de Belém, galgavam o monte das Oliveiras, desciam a Getsêmani, ao vale de Kidrom e Betânia, ou brincavam de esconder entre os vinhedos de Ein Guedi. "E assim eles vivem até hoje", disse Guershom Wald, "uma vida de pureza e liberdade na Cidade Santa e na Terra Prometida, e tudo isso sem mais derramamento de sangue inocente e sem lutas, sem ter de lutar sem trégua com hereges e inimigos. Vivem na Jerusalém deles em paz e tranquilidade, ish tachat gafnó veish tachat teenató, um à sombra de seu vinhedo, outro à sombra de sua figueira. Até o fim de todos os tempos.

E você? Para onde você pensa, se é que pensa, em ir ao sair daqui?"



Trecho do livro JUDAS, do Amós Oz, com tradução do hebraico do Paulo Geiger, páginas 91 a 93. Editora Companhia das Letras, 2014.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Sobre amor





Eu ia escrever algo sobre as minhas parcas compreensões sobre o amor, mas o texto me escapou. Guardei o que pude, fiquei com o que sobrou das coisas que vi, ouvi e senti nos últimos dias e resolvi colocar tudo aqui. Há um tempo atrás, eu tinha um monte de raciocínios e regras de merda sobre o amor. Achava que eram meus valores, achava que era parte da cultura. Agora acho tudo mais confuso que antes. 

De uma coisa não abri mão, e isso é o mais libertador: cada dia me amo mais e posso exercer esse amor com a leveza, compromisso e responsabilidade que eu aprecio: sei quem eu sou e do que gosto; procuro meu prazer, cuido do meu corpo, alma e espírito; me dou flores; me respeito; sei como quero e mereço ser tratada; continuo em busca das mesmas coisas que antes, mas deixei a pressa pra quem está na fila do transplante; respeito meus limites (mesmo provocando em mim mesma a vontade de ampliar o alcance dos meus muros).

Não procuro o amor, porque não quero perder meu tempo. Procuro alguém que queira construir amor em uma relação a dois (sim, eu ainda tenho a romântica certeza que esse tipo de relação é mais fácil quando é exclusiva de apenas duas pessoas). Não sei se existe lugar certo ou errado pra essa pessoa estar. Mas assim como já desviei do caminho algumas vezes, acho possível que ela esteja por aí, em qualquer canto ensolarado do mundo, se divertindo, cuidando de si. O amor não está solto, vagando por aí nos lugares errados, ele mora em alguém, ele é substrato de alguém.


Amor não é sentimento. É atitude, compromisso, substrato. 

substrato: do Lat. substratu, estendido no chão

s. m.,
o que existe nos seres, independentemente das suas qualidades;
o que forma a parte essencial do ser;
o que serve de suporte às qualidades; 

camada inferior; 




Sim, eu continuo procurando sentido nisso, mas continuo achando que não há sentido algum em procurar ou ser encontrado por algo ou alguém. Pode parecer confuso, mas pra mim é isso.
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Foto 1: @johnnypeter, tirada desta mistape e inspirada na música abaixo, do grupo Fino Coletivo (que eu amo!).
Fonte sobre substrato: Priberam;
Foto 1: Uma calçada do bairro de São Francisco, em Niterói, clicada por Elizabeth Maia na tarde de 16/08/2015.




Aplicada a conhecer e entender de Cinema

Então... há algum tempo eu ando incomodada com o meu pouco conhecimento sobre cinema aliada a uma péssima memória dos filmes que assisto. Co...