quinta-feira, 24 de julho de 2014

"Sou feia mas tô na moda" - O Documentário.

Olá pessoal!

Eu vim aqui escrever sobre o documentário "Sou feia mas tô na moda" da diretora Denise Garcia, que estreou em 2006, e que eu só assisti no sábado passado, transmitido pela TV Cultura - sou fã dessa tv! - (eu e meus comentários sobre coisa velha...). Bem, como a intenção aqui não é divulgar, e sim opinar, lá vai...

Na minha adolescência eu achava engraçado o gosto do meu irmão Eliseu pelo funk carioca, na época do "Rap da Felicidade" dos MC's Cidinho e Doca ("Mas eu só quero é ser feliz / Andar tranquilamente na favela onde eu nasci / e poder me orgulhar / e ter a consciência que o pobre tem seu lugar) e o "Rap da Diferença", dos MC's Markynhos e Dollores ("Qual a diferença entre o charme e o funk / Um anda bonito, o outro elegante")... Nunca gostei daquelas letras pobres mas sempre curti o batidão numa fesa, como curtia o Maurício Manieri com o "Bota pra Mexer" e a Fernanda Abreu com o "Baile da Pesada", música onde ela reverencia os djs "das antigas" que animavam os bailes cariocas.

Minha posição, antes de assistir o documentário era a de alguém que não curtia as letras. Sempre achei muito depravado, via de uma forma muito negativa a influência que aquelas letras tinham sobre a cabeça das mulheres, das crianças, dos adolescentes, da sociedade. Numa festa, aquela batida é mesmo contagiante, a dança é sensual, a mulherada dançando chama a atenção dos caras... e etc, etc...

Bem, o documentário mostra um pouco da história do funk carioca, desde os bailes e os discos da galera dos anos 70, e de como a coisa chegou até hoje, da época do "baile violento" (quando o pau quebrava de porrada) até chegar na história do "baile do prazer", onde o pau quebra de outro jeito... O enfoque no vídeo é a opinião e a participação feminina dos bailes e nas letras, por isso elas aparecem mais do que os homens falando, e o argumento principal delas para letras tão erotizadas é que a muher tá se liberando pra falar abertamente sobre sexo da maneira como elas entendem, como elas vêem, como elas aprenderam na favela. O grande mote do funk é falar das coisas do cotidiano da comunidade da comunidade. Pelo que o próprio dj Marlboro disse, é uma espécie de "feminismo sem cartilha". A impressão que eu tive é que, com a liberação da expressão do pensamento através do som, as mulheres conseguiram se libertar de uma postura subserviente, dando voz para as suas vontades e exigindo direitos iguais aos dos homens, inclusive direitos sexuais.

A personagem principal do filme é a MC Deize Tigrona, uma pioneira nas letras sensuais, que faz um "tour" pela favela "Cidade de Deus", apresentando alguns dos mcs atuais, mostrando a cara do povo da comunidade. Eles todos continuam lá nos seus barracos, mas conseguiram, com essas letras, escandalizar parte da sociedade brasileira e chamar a atenção do povo para que acontece lá. Hoje o funk faz tanto barulho que já é estudado por cientistas e curiosos.

Preciso assistir esse vídeo mais uma vez. Passei dois dias ponderando sobre umas questões:
  1. Porque o dj Marlboro tá fazendo turnê na Europa inteira, ganhando dindin, enquanto o povo que faz esse tipo de música continua na favela, sentando no mesmo sofá velho de sempre? Essa situação mudou? Sei que essa galera trabalha muuuuito fazendo show no Brasil, mas será que isso tem um retorno financeiro interessante ou existe ainda uma escravidão?
  2. Quando se fala da música produzida na favela há que se considerar dois estilos principais: o samba (que saiu do morro para o asfalto há tempos) e o funk (que está saindo agora). O funk é um elemento transformador da realidade social, para o bem e para o mal, não só de quem o produz, mas de toda uma comunidade de pessoas que se relacionam com aquele meio;
  3. Quando se fala em qualidade, será que podemos exigir destas pessoas, que não tem acesso à educação, aos livros, à moradia, à saúde, segurança e lazer... (o que dizer sobre educação musical, e acesso aos instrumentos musicais?) que produzam música de alto nível de complexidade e beleza harmônica e melódica? Depois de pensar nisso, comecei a pesquisar sobre a vida do Pixinguinha, que nasceu numa família negra, dez anos após a pseudo abolição da escravidão no Brasil. Como ele construiu e nos deixou uma herança musical tão rica?
  4. O MC Cidinho revela sua indignação frente ao preconceito que a sociedade tem em relação aos moradores da favela e diz que lá tem tanto trabalhador quanto em qualquer outro lugar. Eu fiquei muito comovido quando ele relatou sua sensação de humilhação certa vez quando pegou um taxi com suas duas filhas, as 16h de um certo dia, e o taxista o informou que não entrava na Cidade de Deus, por medo. Ele diz que o funk sofre preconceito não pelo conteúdo de suas letras, mas por causa do povo que o compõe.
  5. O MC Catra questiona se o que as novelas, os filmes, os programas de tv veiculam não são tão erotizados quanto as letras do funk. Basta ver programas como "Zorra Total" e outros, para sabermos a resposta.
Queria colocar aqui uma frase de uma tese de doutorado muuuuito interessante, do Dr. Roberto Carlos da Silva Borges (universidade Federal Fluminense), que fala um pouco do que eu tenho pensado sobre a música negra do Brasil, sobre a situação do negro no Brasil... mas a tese tem algum tipo de proteção "anti-cópia"... Bem quem tiver interesse é só clicar no link aí embaixo. Ela tem uma linguagem simples e vale muito a pena ler. Quem acha que não existe dívida social para com os negros no Brasil, no mínimo não conhece a história do próprio país, no mínimo é sem noção. Leia com atenção a página 31, em diante.

Quem ainda não viu este documentário, vale a pena procurar e assistir. Abriu minha mente para entender o contexto de produção daquela música, daquela cultura, do pensamento desse povo muito parecido comigo: preto, pobre e batalhador.

Chega de destacar as diferenças como algo negativo. Viva a diferença.


Tese de doutorado baseada no documentário.

Segue um "trailer" sobre o filme:




quinta-feira, 9h30, 22 de maio de 2008

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