Coisas que fiz nesses quase três meses morando no Rio de Janeiro

Tenho 30 anos, e pela primeira vez na vida tenho uma pantufa. Não ganhei de ninguém. Estava ali, de passagem, na companhia de duas amigas, quando aquelas carinhas de pelúcia nos olharam e me permiti ser uma criança fofa, ou uma adolescente meiga. A minha é marrom e tem formato de macaquinho, carinha bege e linguinha rosa. Devo ser esta a nova eu, uma mulher que se permite ser romântica, ser criança, ser fofa, ser meiga. Penso que, mais do que na minha adolescência, hoje consigo ser leve, e encarar a vida com um pouco de meninice e bom humor. Neste momento escuto um disco do Cassiano para o qual nunca dei atenção. Que disco lindo! Quanto tempo eu perdi esperando coisas que não são essas que eu tenho agora? O que eu tenho agora? Eu tenho a mim. Sou minha. Minhas histórias, minhas memórias, as coisas que eu aprendi pela leitura, pelas experiências e pela companhia das pessoas, as risadas que conquistei, os sorrisos que guardei na mente. Semana passada fui a um aniversário de criança. Achei curioso que o Betinho (o fofo aniversariante que completava 2 anos de vida) parecia caminhar pelo salão alheio à brincadeira das crianças, aos mimos dos adultos e a conversa desinteressada dos velhos. Ele passeava pra lá e pra cá, sossegado e sonolento carregando e bebendo suco de uva da sua mamadeira. Em alguns momentos tive a impressão que ele não estava interessado na festa e que o importante era estar ali com a sua mamadeira, e só. Eu tenho andado bem assim como o Betinho: estou sossegada, alheia ao movimento, carregando meus prazeres, andando no meio da muvuca instalada no salão. E que a festa continue! 

Tive dias bastante preocupantes aqui no Rio: fiquei sem grana até um dia desses, mas finalmente a situação se normalizou de um jeito muito melhor do que eu poderia imaginar. Consegui uma grana suficiente para pagar as contas que acumulei nos últimos meses e ainda uma sobrinha pra me dar algum luxo: adiantei umas parcelas do carro e comprei uma flauta transversal nova. É antiga a minha vontade de voltar a tocar, mas minha flauta antiga já tem 16 anos. Na época que nós a adquirimos ela já não era boa, imagine agora! Se tudo der certo em breve estarei tocando em um grupo.

Troquei de casa. Eu estava amando o bairro de Vila Isabel, principalmente os sambas (quartas e sextas de muito aprendizado nos sambas da Praça Sete) e o mercado farto. No entanto, eu estava morando numa república insuportavelmente cheia e a convivência tornava tudo muito difícil. Convivência é uma madrasta cruel: torna vilãs pessoas queridas e transforma boas amigas em inimigas sádicas. Mulheres organizadas viram neuróticas e meninas bagunceiras viram péssimos exemplares de gente de costume “faveludo e suburboso” como diria a Fernanda Abreu. Não dava! Eu queria menos gente perto, um pouco mais de espaço, e minha privacidade de volta. Sei que em breve terei um apartamento só pra mim de novo, mas agora não dá. Eu, Cibele, Érika, e futuramente Renata, estamos dividindo um apartamento mais perto do meu trabalho, razoavelmente amplo, num lugar seguro e próximo. Agora me sinto um pouco melhor. Ainda estou sem minhas coisas mas elas já estão no depósito da transportadora esperando que eu arrume um frete para buscá-las.

Vou dividir o quarto com a Cibele, a pessoa mais querida que encontrei aqui no RJ. Temos os mesmos hábitos: gostamos de ler e estudar, não valorizamos a TV, apreciamos o mesmo tipo de música, nos entendemos sem muitas palavras, temos o mesmo Deus, gostamos de silêncio. Sei que vamos nos dar bem aqui.

Eu queria dizer rapidamente o que já fiz aqui no RJ.

  • Fui aos sambas: 

 • Samba de Benfica na Rua do Mercado – Fui com a Sheila e o meu queridíssimo Junior. Lá encontrei o povo do trabalho: Igor e sua namorada Luciana, Yama, Luciana (a minha pretinha carioca favorita), além do Anderson, a voz do samba de Benfica (cara do meu trabalho com quem tenho trocado figurinhas musicais, cara legal!);
• Samba de Benfica em São Cristóvão – Fui com os amigos Cheizer e Thais (ambos de Brasília), Karlinha e Igor;
• Pedra do sal – Fui com a pretinha carioca mais querida do Brasil: Luciana. Samba bonito, cheio de gente bonita e Cult-bacaninha, mas não tem microfone nas vozes. O lugar fica lotado e não dá pra escutar direito o que está rolando e por isso não curti. Vale a pena a visita porque o lugar é super bonito (pra quem gosta de edificações antigas) e enche de tipos negróides lindos;
• Quadra da Escola de Samba Unidos de vila Isabel – Fui no primeiro dia da escolha do samba-enredo para o carnaval do ano que vem. Quem me deu convites foi um compositor de um samba lindo, o Eduardo Katata, mas infelizmente acho que o samba que merece ganhar é o samba do Martinho da Vila e Arlindo Cruz. O samba deles é uma coisa emocionante!
• Sambas na Praça Barão de Drummond – Quartas e sextas-feiras tem samba de mesa na Praça da Vila. Uma aula de samba, coisa linda de se ouvir e ver. Ouso dizer que foram os melhores sambas que vi no Rio.


  • Fui à praia tomar um solzinho e banho de mar. Este programa, até agora foi só uma vez. Fui ao Leblon com o Eduardo e a Karlinha, queridíssimos colegas de trabalho; 
  • Fui ver o show do Rogê, artista mais que querido pelo som que ele toca: ao Carioca da Gema três vezes (uma com uns colegas de Manaus, uma com o Leo, amigo querido que o Rio me trouxe, artista plástico e pessoa mais que divertida, e a última com Renata, Cibele e Érika); ao teatro do Sesi e à loja Reserva no Arpoador. 
  • Fui ao show do Nelsinho Félix e Ana Costa no Carioca da Gema; 
  • Fui ao cinema, com Sheila e Cibele, assistir “E aí, comeu?”, no Shoping Tijuca; 
  • Fui a um aniversário de criança (o Betinho) onde todo mundo se divertiu à beça e ainda ganhou presentes! 
  • Fui a festinhas juninas: uma no condomínio do Junior, com os filhos dele (a Anna, que tem 4 aninhos, e o Vinícius, que tem 5 anos); outra no clube do servidor da prefeitura do Rio (festa do meu trabalho); e ainda a primeira que fui, no Calouste, dia 29 de junho.
  • Fui à exposição da Elis Regina no CCBB com os queridos do meu trabalho: Giordano e Arliny; 
  • Fui a um karaokê com banda ao vivo, em Botafogo, com Sheila, Cibele, Fernanda e Érika. Fui convidada por uma amiga querida que fiz aqui: a baixista gauchíssima Tamara Janson. 
  • Fui assistir a lindíssima execução da ópera Rigoletto com os amigos do trabalho (Eduardo, Arliny e Karla);
  • Fui pra Lapa algumas vezes, pro shopping outras, fui à Feira de São Cristóvão, fui andar na praia de madrugada. 
  • Fui ao 10º Fórum de Certificação Digital (CERTFORUM)
  • Andei, andei, andei...  

Chega, né? Nem sei se tem algo mais que eu fiz. Deve ter. O que eu não quero é parar!

Beijos.

Comentários

Archivist disse…
Betiulhas, Achei seu texto de uma delicadeza absurda, de uma profundidade recôndita...Com ele, eu ri, quase chorei, redescobri você e pude sentir como se eu me sentisse você. Parabéns, querida, você tem não apenas o dom da voz mas, ainda lhe pertece, o dom da escrita. Já pensou em ser Jornalista? Trabalhar com Comunicação? Você leva pinta!