Nem medo, nem calor, nem fogo, nem vontade de chorar, nem de rir.

Eu não sei mais identificar as coisas e pessoas que amo. Antes eu amava música, e também amava ler. continuo ouvindo música e lendo, mas com uma desconfiança, uma inquietação a respeito de todo esse insumo de informação. Desconfio que os livros estejam sempre mentindo. Talvez isso seja resultado natural da malícia que o leitor vai adquirindo com o passar do tempo. Se for isso, que todo critério seja bem-vindo. Quanto à música, é difícil ouvir certas coisas sem parar para prestar atenção, sem ser seletiva. Acho que estou ficando cada vez mais crítica (característica desde sempre revelada na minha personalidade), e isso tem me dado um certo "azedume" ao escutar música e ao ler livros.

Não penso assim em relação às pessoas, não penso que elas mentem para mim, não tenho mania de perseguição. Ainda que eu continue crítica, não assim raciocino sobre pessoas, palavras e atitudes. Só faço isso quando as considero "íntimas" e percebo nesta atitude uma forma de proteger a mim e a quem eu amo. Mas também não sei se posso identificar a quem amo.

Alguns personagens da minha vida eu consigo perceber o amor que sinto. São figurinhas fáceis: meus irmãos, meus pais, alguns amigos mais próximos (alguns desses também são alvo do meu recente melindre), alguns antigos amigos (mais pelo que foi vivido do que pelo que eles representam hoje), parentes que continuam mantendo contato, ainda que virtual. 

Minha mente e meu coração estão tumultuados, e estão assim faz tempo. Comecei uma terapia mas acho que não fui muito feliz na escolha do profissional. Não rolou a tal "química" necessária para que eu me sentisse confortável (ou desconfortável, na verdade sentia indiferença na sessão), instigada ou motivada. Parei de ir. Pelo menos não gasto mais tempo nem gasolina indo lá, falando mais que a boca suporta, e não tendo nenhum tipo de feedback.

Perdi o tesão também pela minha profissão e essa é uma coisa que me preocupa pois eu sempre gostei do que faço e sempre defendi, na medida do possível, a atividade que exerço. Talvez eu tenha me forçado a ter amor pelo ofício porque eu já estava na minha segunda graduação e não tinha mais idade pra ficar bancando a universitária. O problema é: estou passando pela fase mais difícil da minha carreira, até agora, e não vejo perspectiva de melhora. Sei que está na hora de abrir meu caminho e isso depende mais de mim do que de qualquer mercado profissional ou pessoa, mas minha tendência a fugir me cega em uma única direção: fazer outra graduação. Não posso. Não devo. Pelo menos não agora. Não amo o que faço (não neste momento). Também não odeio. Quando penso nisso me sinto como naquela velha canção cantada pela Cássia Eller: "Socorro, eu não estou sentindo nada. Nem medo, nem calor, nem fogo. Não vai dar mais pra chorar nem pra rir. Já não sinto amor nem dor. Já não sinto nada!". 

Mudando de pau pra cacete, mudando de bolso para coração, dia desses me peguei falando uma coisa a um amigo, e agora percebo o quão paralítica, inerte, deficiente me sinto em relação aos assuntos do coração. Ele estava me dizendo que a ex-esposa dele, assim que se separou, conheceu um outro cara com o qual namorou e noivou no tempo da velocidade da luz, e já vai casar de novo. E eu soltei a pérola: "Quando uma mulher se casa pela primeira vez ela faz isso com o cara dos seus sonhos. Quando essa mesma mulher se casa pela segunda vez ela faz isso com um cara que lhe seja adequado". Hoje me sinto uma derrotada, uma perdedora pessimista sabendo que falei isso, que penso isso, como se no auge do meu desespero para ser amada, ser feliz, ser esposa e ser mãe, eu aceitasse qualquer homem na minha vida que fosse apto e disposto a me dar essas coisas. E pior (ou não): me sinto disposta a retribuir todas essas coisas com a mesma moeda, mesmo assim, sem sentir. Será isso maturidade? Será letargia?

Será que tenho agido assim? Será que eu amo algo ou alguém? Será que sinto tesão por alguma coisa (profissional, afetiva ou qualquer coisa que o valha)? Será que estou sentindo alguma coisa?

Até mais.




PS: A verdade é que estou cansada de ir pra cama com meu notebook. Estou de saco cheio desse vício vazio chamado rede social, que só não é mais chata porque o tempo todo que fico conectada fico despejando conteúdo no Facebook. Se eu tivesse alguém, e eu nunca tenho, acho que tudo seria bem diferente.


Comentários

Anônimo disse…
Ando me sentindo exatamente igual.
Não sei porque, mas perdi o tesão pelo trabalho, por minha esposa, por tudo eu acho.

Com apenas 25 anos, ando tão triste :(

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