Do caco à história

Nunca li um livro de Clarice Lispector e confesso que tenho um pouco de antipatia pela enorme quantidade de trechos de poesia que circulam na internet atribuídos à escritora. Sei que Paco, meu amigo mexicano (muito querido) é apaixonado pela escritora e que ele quase sempre lia, em nossas aulas de português via Skype, trechos de livros dela.

Olha o poster-protesto que caminha na internet sobre esse excesso de Clarice (principalmente no Facebook):



Hoje, navegando no site da Revista Piauí, vi a notícia de mais um manuscrito inédito encontrado. Me identifiquei muito com o que estava escrito e vi poesia na ausência, no caco, no que sobrou, no que não foi incluído.

Olha só o que a matéria dizia:

"Fora os papéis guardados no arquivo de sua família, os manuscritos de Clarice Lispector são muito raros em coleções privadas. Com a fama cada vez maior da escritora e o número crescente de admiradores no exterior existe inclusive uma grande procura por seus documentos de parte de universidades, e Instituições, e colecionadores estrangeiros.


A página manuscrita aqui reproduzida contém uma frase belíssima que não chegou à versão publicada de A Hora da Estrela e que menciona Macabéa, talvez uma de suas personagens mais famosas. São apenas três frases:

Macabéa não sabia como se defender da vida numa grande cidade. Ela que tinha um sonho impossível: o de um dia possuir uma árvore. Que árvore, que nada: não havia nem grama sob os seus pés”."




Eu, como Macabéa, também não sei me defender numa grande cidade, também quero uma árvore, e me frustro ao saber quem nem mesmo grama há sob meus pés.

Estou frustrada e triste pelo fim de mais uma tentativa de estar bem com alguém, ter companhia, namorar, e quem sabe um dia a minha árvore: a minha tão desejada família.

Acho que tentei, como tenho tentado ao longo desses meses pós-casamento. Talvez eu tenha entendido isso (finalmente) nesses últimos dias. Talvez por isso meu coração não tenha suportado a conclusão da minha cabeça: não é possíve progredir assim. Tenho lutado para não abrir mão do pouco que tenho na relação com o príncipe, mas percebi que este pouco não me serve. Essa pouca grama sob meus pés não é suficiente. Pior: a terra que eu tenho para oferecer à minha árvore não é saudável nem boa para que eu plante uma árvore. Por isso é melhor o fim. É melhor que eu cuide de mim.

Para ler a matéria sobre Clarice na Revista Piauí, clique aqui.

Um beijo.

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