quarta-feira, 28 de abril de 2010

Nascente

Minha voz impetuosa se cala, mas em um momento a mente fala baixinho...

Por isso, sou um ser da madrugada.

É quando o mundo se cala que eu consigo abrir as portas e janelas da alma, é que eu consigo me escutar e ser eu mesma... Como se de dentro do meu quarto eu conseguisse perambular por aí, respirando a brisa da noite, e pensar com lucidez.

Na madrugada, quando só os cães e os ladrões fazem a festa, eu acordo para o que nasce dentro do meu peito como um rio calmo, nascente miúda e silensiosa... e cresce.

É durante a madrugada que eu ouço minha mente com clareza, é que a voz se cala pra ouvir cabeça e coração, antes de ser vencida pelo sono e pelas mordaças dos olhos alheios abertos pelo dia. Ninguém me olha. Retiro as máscaras e os pesos das costas. Os títulos, os rótulos, os personagens, todos vão ao chão depois que o ponteiro do relógio manda a cidade para a cama.

Durante a madrugada fico sóbria, serena, e pela primeira vez consigo ponderar com equilíbrio, sem delírios, sobre o dia que se foi e o outro que vai chegar.

Assim fico quieta, emudeço os lábios, acalmo o corpo, e procuro o equilíbrio entre a multidão e solidão, entre pesar e delirar, entre a vida e o sonho, entre a fala e o silêncio. Guerrear e apaziguar, trabalhar e gozar, experimentar e refletir. Tudo em um ponto só.

Ouço os sons da madrugada. Todos nascem dentro de mim.

As multidões

Nem todos podem tomar um banho na multidão: ter o prazer da turba é uma arte. Só assim se pode oferecer, à custa do gênero humano, um b...