segunda-feira, 6 de abril de 2009

Poema em linha reta

Hoje de manhã passei numa banca, comprei uma revista e um livro de poesias de Fernando Pessoa, dessas edições baratas disponíveis neste tipo de banca... abri a brochura e me deparei com este texto, com o qual tive identificação imediata.
Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)


"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."

3 comentários:

Rodrigo Fortes disse...

É Beth, isso é maravilhoso. Até esse espaço chamado blog serve pra dizer que se é príncipe. Ninguém pode mais ser humano. Não se pode chorar, sentir dor, solidão (acabo de me lembrar do dia em que vc me disse que eu adorava uma "deprê", como se fosse coisa do outro mundo). É o mundo. Eu prefiro continuar sendo humano, demasiado humano, e vivendo as minhas imperfeições, as minhas incompletudes, as minhas inconformidades, a sorrir diante de um espelho e ver meus dentes coloridos artificialmente pelo novo creme dental comprado por influência da última grande propaganda da maior multi-nacional do mundo.
bjs
Adorei esse merda desse poema. Eu amo Fernando Pessoa (principalmente o Álvaro)

Elizabeth Maia disse...

Ê Rodrigo, hahahaha Vc é um figuraça! De vez em quando eu também gosto de ser humana. MAs eu ainda prefiro a mediocridade da alegria, do contentamento e da leveza, do amor correspondido, da segurança de que tudo vai dar certo... A tristeza é boêmia e poética... é bela... e também tem seu valor. A tristeza nos purifica, o fracasso nos melhora. No fundo, tudo isso faz parte. Um beijão pra vc!

Beth

Rodrigo Fortes disse...

Continue assim semideusa!
"Toda a gente que eu conheço e que fala comigo. Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...".

Bom dia "princesa".rss
bj

Aplicada a conhecer e entender de Cinema

Então... há algum tempo eu ando incomodada com o meu pouco conhecimento sobre cinema aliada a uma péssima memória dos filmes que assisto. Co...