DESCONFORTÁVEL

Tenho um corpo emprestado
num terno puído
e um nó de gravata
¬de entristecer domingos.

E não me basta um só tropeço.

A cidade não é o meu lugar;
o trabalho não é o meu lugar;
seu amor não é o meu lugar.

Tenho um jeito de quem chegou primeiro na festa de um desconhecido. Ninguém me conhece. Mas me tratam como amigo. Como, bebo e passo mal no banheiro. Vou embora desacompanhado. E os demais se perguntando: quem era fulano? Um parente distante? Um fantasma? Um abacate?

Como seria
se um dia
eu acordasse
satisfeito?

(...) com o amor, com o dinheiro, com o corpo, com o emprego, com o almoço ou a quantidade de água que sai do meu chuveiro.

Talvez morresse de tédio
Talvez fosse feliz
Talvez fosse médio
Talvez.

Flor distraída do asfalto
quem te pisa?

Gilberto Amendola, 33, é jornalista e escreve no Haja Saco às quintas-feiras

Comentários

Rodrigo Fortes disse…
Maravilhoso. Sem palavras.
Elizabeth Maia disse…
O Amendola faz isso com a gente: nos dá vontade de calar a boca e não abrir nunca mais. rs...

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