EU QUERIA ESCREVER ASSIM:

POEMA DESTROÇADO

este poema, assim
como tantos outros
que tomaram meu tempo,
é pra você

mas neste poema você
vai encontrar uma diferença:
ele não está aparado

aqui, não me preocupa
sua comoção, seus olhos
marejados, sua falsa pretensão
de querer retribuir

aqui, o que quero é dar
o troco, o único que posso,
esta raiva inútil, um poema
sem nenhum polimento

portanto, fiz questão de
deixar todas as arestas,
a sujeira grudada
nos cantos pontiagudos
de cada verso errado

um poema enferrujado
e mal-feito

e espero, com toda sinceridade,
que você se machuque, que
corte as mãos ao ler

que um pedaço cintilante
deste poema ruim se aloje
sob sua pele, enterrado fundo
na carne vermelha

e este pedaço cheio de um
tétano lírico e rancoroso,
vai se misturar de tal
maneira em você,
que vai correr subterrâneo
e silencioso no seu sangue
assim, aos poucos, este
fiapo deformado e podre
do meu poema se tornará
uma parte indissociável
de você, feito um vírus
perpétuo

às vezes, de repente,
sem nenhum tipo de aviso
ou sintoma prévio, você vai
sentir uma dor meio sem
explicação, uma pontada
num lugar que você não
consegue identificar

quando estiver dormindo,
vai acordar incomodada com
essa coisa que você não
sabe o que é, uma fisgada
no corpo todo, uma ausência
irrecuperável que vem não
se sabe de onde

e então, somente então,
você vai finalmente
entender a falta que me faz

Mauricio Duarte dos Santos, 27, é jornalista e escreve no Haja Saco às segunda-feiras

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